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Entrevista com Manuel Siqueira, presidente da ASPROC

19 de Novembro de 2020 às 00:00

A Associação de Produtores Rurais de Carauari (ASPROC) foi a primeira organização criada no médio Juruá e, com 27 anos de trajetória, atua na organização e comercialização da produção rural das comunidades da região, além da atuação fundamental da luta pelo território e na criação das unidades de conservação. Através de um trabalho coletivo, a ASPROC aboliu os intermediários nas trocas comerciais dos produtos do agroextrativismo no médio Juruá e articulou a aproximação de órgãos fundiários com as populações tradicionais, inaugurando uma nova modalidade de acesso à créditos da reforma agrária para melhorias habitacionais, que veio a beneficiar muitas famílias por todo o Brasil. Idealizadora de um projeto de saneamento básico que se tornou política pública federal, também contribuiu para o nivelamento do preço pago pelo pirarucu manejado às associações de base em todo o Amazonas através da criação do Coletivo do Pirarucu. Para nos contar sobre o histórico, o funcionamento, e os grandes feitos da ASPROC, convidamos Manuel Siqueira, o Manuelzinho, presidente da associação no terceiro mandato e grande liderança local cuja história de engajamento e otimismo perante às adversidades inspiram a associação, que em suas palavras, é a “organização mãe” do Médio Juruá.

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INSTITUTO JURUÁ. Por favor, se apresente e nos conte o que é a ASPROC?

MANUELZINHO. Eu sou Manuel Cosme Siqueira, conhecido como Manuelzinho, atual presidente da Associação dos Produtores Rurais de Carauari, a ASPROC. A ASPROC é a organização mãe do médio Juruá, foi a primeira associação criada nesse território, e nasceu com o objetivo de organizar e comercializar a produção das comunidades e buscar o direito dos seus associados e associadas. Eu estou no meu terceiro mandato e durante todo esse tempo sempre buscamos parcerias para executar as atividades dentro das comunidades da associação, tendo muita consciência dos avanços já realizados no médio Juruá. Essas conquistas se devem também aos parceiros que atuam conjuntamente aqui na região com as organizações de base. Esse trabalho, fruto de parcerias e união, tem possibilitado resultados positivos naquilo que sempre defendemos que é a melhoria da qualidade de vida das famílias e a conservação dos recursos naturais para que as futuras gerações tenham oportunidades ainda melhores de desenvolvimento. Esses são os objetivos da ASPROC, assim como dos demais parceiros que aqui atuam.

INSTITUTO JURUÁ. Considerando as distâncias entre as comunidades, as dificuldades de acesso e de deslocamento, principalmente no início dos anos 90 quando a ASPROC foi instituída, como a população conseguiu se organizar para construir a associação dos produtores?

MANUELZINHO. Antes da associação existir, o médio Juruá era organizado em seringais, onde os patrões dominavam, oprimiam, se consideravam os donos das terras e os seringueiros trabalhavam para eles. Já no final dos anos 80, começou um movimento liderado pelo MEB (Movimento Eclesiástico de Base) da Igreja Católica, com o padre João Derickx, que iniciou o trabalho de mobilização dos trabalhadores, seringueiros na época, para que começassem a conhecer os seus direitos. A partir de várias reuniões questionando o modo de vida da época, começaram a entender a importância de se organizar em comunidades. No início eram poucas, quatro ou cinco comunidades que começaram a se mobilizar para sair daquele sistema opressor de perseguição e buscarem outras oportunidades. Nessa época tiveram muitas ameaças, lideranças foram presas para que a gente não saísse daquele sistema. E então começamos a nos organizar para escoar a produção, algumas lideranças viajavam às cidades, comercializavam os produtos e retornavam com a cesta básica para suas comunidades comprada com a venda daquela produção. Esse movimento incentivou outras comunidades a entrarem nesse trabalho, porque percebiam as vantagens nos preços, já que os produtos eram vendidos a preços bem melhores do que estavam acostumados. A partir daí entendemos que não bastava apenas a criação de comunidades, mas era também importante criar uma organização que nos representasse, e foi então que surgiu a ASPROC. A ASPROC foi criada juridicamente em 1994 mas desde 1990 já atuava de maneira informal, articulando as comunidades. Com a organização das comunidades e comercialização surgiram muitos avanços, até percebermos a importância da garantia do território e começamos a lutar pelas unidades de conservação. A gente reconhece no médio Juruá essa nossa história de luta, de muita dificuldade, mas quando olhamos para trás vemos que valeu a pena. Costumamos dizer que naquela época nunca poderíamos imaginar os avanços que conseguimos alcançar. Quanto mais você vai avançando, vai conquistando, vai melhorando de vida, mais você acredita, e a gente não pode parar, a cada dia alcançamos um pouco mais.

INSTITUTO JURUÁ. Qual a relação entre a ASPROC e a criação da Reserva Extrativista do Médio Juruá (RESEX Médio Juruá) e da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari (RDS Uacari)?

MANUELZINHO. As coisas aconteceram em etapas, primeiro foi esse processo da gente se organizar em comunidades para buscar nossos direitos, o segundo passo foi criar uma associação que nos representasse e o outro passo foi a luta pelo território, porque só poderíamos avançar se conseguíssemos a garantia do território. Quando foi criada, a ASPROC também tinha esse objetivo de lutar pela garantia do território. Então a ASPROC foi super importante nesse processo, eu diria que não haveria a criação da RESEX se não tivéssemos criado antes a ASPROC. A RESEX foi criada em 1997 e, a ASPROC seguiu atuando no processo de organização e mobilização social dando todo o suporte para que fosse também implementada a RDS Uacari, contemplando as comunidades que haviam ficado de fora da RESEX, e juntos garantimos 100% do território para as comunidades. Então, a ASPROC foi super importante para garantir essa mobilização, essa busca, essa articulação e interligação dos conflitos para que a gente pudesse chegar no nosso objetivo que era a implementação da RDS Uacari.

INSTITUTO JURUÁ. Existem muitos projetos a frente da ASPROC, muitas iniciativas, atividades e parcerias, mas existem duas frentes principais que são: os projetos sociais e os projetos voltados para a comercialização da produção e geração de renda. Dentro dessas duas frentes, a social e a produtiva, quais foram os grandes marcos na história da associação?

MANUELZINHO. A ASPROC a cada período procura estar sempre melhorando, e começamos a criar dentro da associação o nosso planejamento estratégico. Esse planejamento é definido por eixos, temos o eixo das ações sociais, o eixo da geração de renda, dentre outros. No eixo das ações sociais, consideramos um marco super importante a integração ao Programa Nacional de Reforma Agrária, que conseguimos, através da articulação com apoiadores e parceiros, implementar esse programa de políticas públicas e demos um salto muito grande na qualidade da moradia das famílias, que eram até então palafitas não muito adequadas. E hoje podemos ver isso na prática, pois temos cerca de 90% das moradias das unidades de conservação dentro dessa política. Além disso, a implementação do saneamento básico também foi um grande marco. A ASPROC, apoiada pela Petrobras, começou um sistema de saneamento básico com um projeto piloto em uma comunidade, implementando o bombeamento, o tratamento e a distribuição de água para abastecer as famílias. Nós conseguimos dar continuidade a este projeto criando o Programa Sanear Amazônia, que veio a se tornar uma política pública do governo federal. Graças à essa iniciativa, lá atrás, com um projetinho em apenas uma comunidade, alguns anos depois conseguimos implementar no município de Carauari e foi replicada praticamente no Brasil todo essa política de saneamento básico, melhorando a qualidade de vida de muitas famílias. No eixo da geração de renda, temos a comercialização através de políticas públicas como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar). Temos a cadeia dos óleos, que é super importante, temos a cadeia da agricultura familiar, do látex da seringueira que está retornando com força, e também o manejo do pirarucu, que é uma das mais novas, iniciada em 2010. O manejo gera uma renda muito importante para as comunidades, e existe por trás do manejo todo o histórico de organização comunitária, de proteção dos lagos e de todas as cadeias e benefícios trazidos pelas atividades envolvidas. Então, essas conquistas como o manejo do pirarucu e a retomada da cadeia da borracha a preços justos, são frutos de organização, articulações e parcerias, e são exemplos de atividades sustentáveis, que geram renda e melhoram o ambiente como um todo.

INSTITUTO JURUÁ. O Comércio Ribeirinho da Cidadania e Solidário é outro projeto importante dentro da ASPROC, no qual a produção das comunidades é escoada e ao mesmo tempo os produtos industrializados da cesta básica são comercializados a preços justo dentro das comunidades. Como foi a implementação desse projeto?

MANUELZINHO. A ASPROC como sempre trabalhou nessa parte de organizar e comercializar, e tentamos vários modelos de comercialização. Começamos pelo nosso barco transportando a produção, mas logo percebemos que outros modelos seriam mais interessantes. Então, em 2009, criamos o Comércio Ribeirinho da Cidadania e Solidário, com polos de comercialização nas próprias comunidades, agregando as comunidades próximas. Consideramos um dos projetos mais importantes da ASPROC, tanto quanto os outros, porque garante a comercialização da produção das comunidades. Havia o grande desafio que era comercializar, já produzíamos em larga escala mas não conseguíamos comercializar. Além de oferecer a cesta básica a preço justo, agora é possível também comercializar a produção das comunidades. O Comércio Ribeirinho trabalha também em todas as áreas que a ASPROC trabalha, é um grande guarda chuva que abriga outros projetos da ASPROC ligados à comercialização como, por exemplo, o manejo do pirarucu e a produção de borracha. Foi uma grande conquista da associação e hoje em dia está bastante consolidado, anualmente ocorrem assembléias onde a gente faz uma avaliação, debatemos e realizamos o planejamento para o ano, assim como decidimos as demandas principais para as quais vamos buscar apoio. Sempre trabalhamos com assembléias, de onde saem as nossas prioridades para o ano, e a diretoria, a equipe de assessores e parceiros correm atrás dessas demandas discutidas na assembléia. Acredito que é isso que possibilita darmos a voz para o coletivo, o que é muito positivo.

INSTITUTO JURUÁ. Como a ASPROC vem conquistando parcerias?

MANUELZINHO. Temos como prática quadrimestral nossas reuniões de diretoria onde sempre pautamos nossos esforços, nossas fraquezas, nossos desafios e como superá-los, e sabemos que nem todos os desafios vamos conseguir superar sozinhos. Dessa experiência de levantamento dos desafios, a gente identifica os possíveis parceiros e a partir daí buscamos o apoio deles para superarmos juntos os desafios, sempre trabalhamos em coletividade, juntando forças. Temos parceiros aqui da região, entidades, instituições do setor privado também, como a Natura e a Coca-Cola. Chegou um momento em que percebemos que tínhamos vários parceiros mas que a gente não trabalhava coletivamente no planejamento como um todo. Foi quando nos reunimos e criamos o Fórum do Território Médio Juruá, chamando todas as organizações e entidades que trabalhavam aqui na região para que a gente pudesse debater, compartilhar o planejamento e agregar as atividades que tivessem os mesmos objetivos, diminuindo custos e ganhando eficiência. Esse trabalho coletivo, honesto, com transparência e bem feito atraiu um grande número de parceiros muito importantes aqui no médio Juruá, sempre incrementando o trabalho com as comunidades.

INSTITUTO JURUÁ. Como a ASPROC passou a ser referência do manejo de pirarucu no Estado do Amazonas, com a construção do Coletivo do Pirarucu?

MANUELZINHO. Havia muita discussão a respeito do preço do pirarucu, em alguns lugares se pagava o preço mínimo e aqui no médio Juruá conseguimos negociar até o dobro do preço praticado no Estado como um todo. A partir desse diagnóstico a ASPROC começou a ser convidada, nos mobilizamos e criamos o Coletivo do Pirarucu, no qual fazem parte praticamente todas as associações que trabalham com o manejo do pirarucu do Estado do Amazonas, para que a gente pudesse discutir como melhorar o preço nessas outras áreas. Assim, a ASPROC se tornou referência na comercialização e conseguimos nivelar os preços praticados no médio Juruá paras essas outras áreas também. Nós sempre pautamos essa questão da transparência, de botar na mesa o quanto está sendo gasto, como está sendo vendido e o que está retornando para que a gente possa, de todas as formas, melhorar e devolver um valor a mais para quem de fato tem mais trabalho, quem faz o manejo e a proteção, que são os manejadores. Com esse controle financeiro e redução de custos que temos a partir da nossa gestão e administração vamos conseguir melhorar ainda mais esse preço pago na ponta.

INSTITUTO JURUÁ. Como a ASPROC consegue expandir, crescer e contemplar outras regiões do Estado lidando com todas as dificuldades, como a de acesso à internet na região, sem perder o contato próximo com as comunidades?

MANUELZINHO. Realmente, temos desafios enormes, mas, nesses mais de 25 anos de estrada, conseguimos adquirir muitos aprendizados e superamos muitas dificuldades. Temos dificuldade de internet, de comunicação e de acesso mesmo. Uma das soluções estratégicas foi criar em Manaus um ponto focal para minimizar esse problema da internet e da comunicação, como também do mercado, visto que Carauari é muito isolada. Conseguimos melhorar nossa comunicação com as comunidades através do rádio e há quatro anos conseguimos também implementar internet em algumas comunidades. A internet aqui no município também tem melhorado, mas ainda não é o suficiente. Sobre a ASPROC funcionar tão bem, o que consideramos muito importante é a nossa identificação com a base, é a base que deve estar organizada e fortalecida para trazer as demandas, a diretoria é responsável, transparente e dedicada para buscar soluções para as demandas das comunidades e também ter parceiros que possam enfrentar essa busca por melhorias. O segredo da ASPROC é sempre ter como prioridade as demandas das comunidades, transparência na execução de suas atividades, parceiros que realmente se identifiquem com a sua causa e que tenham os mesmos objetivos. Essas relações de identificação geram soluções, esse é o grande aprendizado da ASPROC.

INSTITUTO JURUÁ. Quais são os principais desafios que a ASPROC vem enfrentando ultimamente, principalmente neste ano, com a pandemia e as paralisações nos comércios?

MANUELZINHO. Esse foi um ano muito atípico, a pandemia atrapalhou alguns contratos, mas ainda assim precisamos garantir a comercialização. Sempre buscamos não depender exclusivamente de uma situação, temos sempre outras situações para que possamos nos articular para contornar períodos de dificuldades e viabilizar a continuidade do trabalho das comunidades. Nosso principal desafio ainda é a comercialização, os custos ainda são muito altos devido às distâncias que nós temos aqui. Os recursos disponíveis para políticas públicas, como o PAA e PNAE, que eram programas de apoios à nossa produção, tem reduzido drasticamente e por isso nossa comercialização com o Estado para merendas e programas sociais está comprometida. São algumas dificuldades, mas que também nos possibilitam um aprendizado e a busca por novas oportunidades. Afinal, as políticas públicas, por mais que sejam superimportantes e que beneficiem muito os trabalhadores, podem vir a acabar, e nós não podemos acabar junto com elas.

INSTITUTO JURUÁ. Quais as perspectivas da ASPROC para os próximos anos?

MANUELZINHO. No nosso entreposto em Carauari, pretendemos expandir para outras áreas que ainda não conseguimos chegar, queremos construir um planejamento coletivo para atingir uma área bem maior do que a gente atua hoje. Outra perspectiva nossa, é que a gente possa trabalhar com o manejo de outras espécies com grande potencial, além do pirarucu, para que a gente possa manter nosso objetivo e os nossos setores funcionando ao longo de todo o ano, e assim aumentar as oportunidades para a geração de renda. Essas são as nossas metas para o futuro.

Por: Clara Machado

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Foto: Carolina Freitas


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