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Instituto Juruá entrevista Profº Drº Carlos Peres

23 de Setembro de 2020 às 00:00

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Nascido em Belém e radicado na Inglaterra, Carlos Peres vem estudando nos últimos 30 anos a ecologia de comunidades de animais nas florestas amazônicas, a ecologia populacional dos principais recursos florestais tropicais e os critérios biológicos para projetar grandes reservas naturais. É codiretor de quatro programas de pesquisa em ecologia e conservação nas florestas amazônicas e publicou cerca de 400 artigos sobre ecologia e conservação de florestas neotropicais em escalas de todos os tamanhos. Ganhador de prêmios internacionais, o diretor científico do Instituto Juruá é também professor de Ecologia Tropical de Conservação na University of East Anglia. O Prof. Dr. Carlos Peres nos concedeu uma entrevista para contar um pouco da sua trajetória na região do médio Juruá, relatando até onde a sua obstinação por primatas o levou, passando por uma expedição de um ano inteiro navegando por toda a extensão do rio Juruá no Brasil e contando suas expectativas com a recente criação do Instituto Juruá. [Escute aqui, somente em inglês].

INSTITUTO JURUÁ. O que o levou à região do médio Juruá e que cenário o senhor encontrou por lá?

CARLOS PERES. Eu nasci e fui criado na Amazônia oriental, mas a Amazônia ocidental sempre foi um mistério para mim. Na época, eu tinha por volta de 24 anos, era aluno de doutorado na Universidade de Cambridge e estava procurando por uma área de estudo, interessado em uma comunidade de primatas muito rica em espécies. Foi quando soube que a Petrobras estava explorando óleo e gás na Amazônia ocidental brasileira, então decidi entrar em contato perguntando se poderiam oferecer apoio logístico para meu projeto em uma área remota da região. Eu buscava um lugar nunca antes trabalhado por pesquisadores, e foi exatamente o que encontrei. A Petrobras me levou de helicóptero até a área, fui com uma equipe que me ajudou a construir uma casa e abrir um enorme sistema de trilhas, com 900 hectares. Tive um dos maiores sistemas experimentais de trilhas de floresta tropical, e foi construído para aquele único estudo. Passei dois anos percorrendo a área para fazer meu doutorado, e voava de helicóptero até Carauari mensalmente para nos abastecer com suprimentos. Desta forma conheci o Juruá, por volta de 1987. Naquela época era tudo bem diferente, os índices de alfabetização eram muito baixos e a população rural muito pobre. A partir deste cenário, conseguimos comparar todas as mudanças que vêm ocorrendo no Juruá, tanto em termos de demografia das populações de recursos naturais como do status social das comunidades locais.

INSTITUTO JURUÁ. O senhor pode nos contar um pouco da trajetória desde a sua chegada no médio Juruá até a construção do Projeto Médio Juruá (PMJ)?

CARLOS PERES. Eu trabalhei em várias regiões da Amazônia, mas sempre quis voltar ao Juruá, então em 1991 fizemos uma expedição fluvial que durou um ano e cobriu duas vezes a extensão da parte brasileira do rio Juruá, a partir da foz do rio Solimões até a fronteira com o Peru, ida e volta. Compramos um barco em Manaus, o Coró-coró, e o adaptamos para um barco de pesquisa. Éramos uma equipe de cerca de 6 pessoas, principalmente taxonomistas, e foi uma grande aventura. Essa foi a primeira vez que um grande afluente de água branca do rio Amazonas foi percorrido por um grupo de biólogos. Depois disso, continuei viajando para Carauari até que conseguimos um financiamento da Darwin Initiative for the Survival of Species, e implementamos um Programa de Pesquisa em Ecologia Aplicada, voltado para recursos terrestres, que foi a primeira fase do PMJ, seguida pela segunda fase, focada nas áreas de várzea e nos recursos aquáticos. Na época, havia também outras iniciativas na região. O Instituto Juruá é uma extensão natural de tudo o que foi feito por lá.

INSTITUTO JURUÁ. Como o trabalho de conservação com as comunidades locais se desenvolveu ao longo do tempo?

CARLOS PERES. Na viagem de barco em 1991, nós chegávamos em algumas áreas onde subíamos em terra e as pessoas eram realmente bem pobres. Naquela época, havia muito pouco contato com estranhos e até barcos eram raros. Vimos isso em primeira mão em locais remotos ao longo do rio Juruá. Desde então as coisas mudaram bastante e as lideranças políticas do Juruá tiveram um papel importante na consolidação do Movimento Extrativista iniciado no Acre, com Chico Mendes e outros seringueiros da época. As comunidades locais com as quais trabalhamos sempre se mostraram predispostas ao discurso conservacionista, não acho que tenha sido difícil convencer as pessoas a embarcar nessas ideias, talvez por causa de seu histórico de luta. Em condição análoga à escravidão, as pessoas endividavam-se com o sujeito que se dizia “barão” do seringal. As reservas, acima de tudo, garantiam a emancipação econômica da população dos barões da borracha, que dominavam, desde 1894, todo o comércio dos recursos: peixes, peixes-boi, tartarugas, borracha, e tudo o que a floresta pudesse produzir. Caso tentassem escapar, eram baleados ou torturados. Quando as pessoas do Juruá param para escutar seus avós, é essa a história que escutam e espero que essa memória não se apague. A nova geração deve saber como as coisas eram difíceis, ainda que há apenas três ou quatro décadas. Depois que as reservas extrativistas começaram a ser criadas, a dinâmica social e política nessas áreas rurais começou a mudar e nosso projeto foi construído baseado em todas essas transições. Se você conversar com uma criança de dez anos do Juruá agora, é provável que ela já esteja alfabetizada. Desta forma, há um grande avanço nos indicadores socioeconômicos, que se traduzem em saúde, ganhos e geração de renda.

INSTITUTO JURUÁ. O senhor pode nos contar um pouco mais sobre como o trabalho de conservação é desenvolvido?

CARLOS PERES. O Juruá apresenta uma série de experiências realmente interessantes, por trás das quais está a presença de ecossistemas relativamente intactos, o que contribui muito com tudo o que estamos fazendo. Essencialmente, estamos ajudando a criar no Juruá um cenário onde a exploração dos recursos seja espacialmente estruturada. Assim, temos praias e lagos protegidos, e não importa se é direcionado apenas para uma ou duas espécies, pois todas as outras se beneficiarão dessa proteção. Os regulamentos são aplicados localmente pelas comunidades mais próximas, são muito eficazes e de baixo custo. Eu procurei na literatura e realmente não consigo pensar em um melhor custo-benefício em termos do que estamos gastando financeiramente e o que estamos recebendo de volta com os dividendos da conservação. É incrivelmente eficaz, pois combinando a alta produtividade das várzeas com a baixa exploração de recursos, o que se obtém é um crescimento populacional elevadíssimo. E eu acredito que ainda há muito por vir, conforme alguns dos programas se fortaleçam e se consolidem.

INSTITUTO JURUÁ. Quão excepcional é a região do médio Juruá?

CARLOS PERES. Em conservação de áreas tropicais ao redor do mundo é relativamente fácil conquistar corações e mentes das populações locais contanto que haja benefícios tangíveis que retornem a elas. Porém, o problema com a conservação na maior parte do mundo é que os dividendos da conservação raramente retornam para as populações. Esses casos de conservação ganha-ganha, como fazemos no Juruá, são raros. O Juruá não é a regra, mas a exceção. É um caso excepcional de ganha-ganha principalmente porque a maioria de nosso pessoal está disposta para trabalhar muito pela conservação, às vezes colocando suas vidas na linha de frente, porque estão ganhando algo com isso. O pirarucu é um ótimo exemplo, afinal o manejo oferece uma receita anual sem precedentes em muitas comunidades. É por isso que as comunidades envolvidas no manejo estão satisfeitas em participar, e as notícias sobre os benefícios socioeconômicos se espalham rio afora, resultando em um grande apetite de adesão ao programa, mesmo em áreas desprotegidas. Os benefícios que vemos agora em termos de recuperação populacional das espécies historicamente muito exploradas (não apenas pirarucu, mas também peixe-boi, boto, tartaruga) são apenas mais um produto dessa recuperação. As pessoas não estão mais explorando estas espécies, então é provável que se recuperem numericamente e comecem a se espalhar. Existe um componente espacial de recuperação populacional e também um componente numérico. Tenho certeza de que, com o tempo, todas essas populações podem se recuperar totalmente e alcançar algum equilíbrio demográfico.

INSTITUTO JURUÁ. Quais são suas expectativas para a Instituto Juruá, depois de toda essa sucessão de projetos e parcerias que foram feitas?

CARLOS PERES. Estou muito feliz com o Instituto Juruá, pensamos nisso por muitos anos, mas acho que os ingredientes para fazer acontecer não estavam disponíveis até recentemente. A grande maioria dos municípios da Amazônia brasileira tem sua receita baseada em madeira, carne bovina ou grãos, como soja e milho. É interessante que a principal fonte de receita de Carauari venha do pescado, um recurso natural que pode ser perfeitamente renovável e sustentável, muito mais do que a madeira. Além disso, os peixes de rio são muito superiores aos criados em cativeiro em termos de saúde, composição nutricional e sabor. Acho que é assim que vamos avançar, ensinando os consumidores que se pagarem um pouco mais por um peixe do Juruá, eles estão valorizando esse recurso. Estamos produzindo uma mercadoria valiosíssima que a população local ainda vende por preços muito baixos, mas acredito que isso vá mudar com o tempo.

INSTITUTO JURUÁ. No atual cenário político brasileiro é possível manter o otimismo para o desenvolvimento da Amazônia?

CARLOS PERES. É bem difícil ser otimista a respeito da Amazônia porque as notícias que escutamos tendem a ser sobre desmatamento, incêndios e degradação florestal, especialmente neste ambiente político tão hostil. Então, uma região como o Juruá, dadas as boas notícias vindas de lá, é um vislumbre de uma história mais feliz. O maior problema da Amazônia é que ainda não sabemos como valorizar seus recursos naturais, especialmente a floresta em pé, os rios e os recursos das várzeas. Esses recursos não podem competir com a substituição de todo o ecossistema por pasto exótico ou monocultura de soja, como é feito por povos do centro-sul do Brasil na Amazônia. O agronegócio domina a política brasileira no momento e há muito pouco desenvolvimento de base acontecendo. Portanto, o Juruá é um raro vislumbre de esperança em um cenário muito sombrio em que estamos vivendo.

INSTITUTO JURUÁ. Que sugestão cultural o senhor nos dá para ler, assistir ou ouvir a respeito da Amazônia?

CARLOS PERES. A história literária da Amazônia começa com Alfred Russel Wallace e Henry Bates, então vou sugerir o que considero ser a literatura básica destes autores.

“O naturalista do rio Amazonas” (Henry Walter Bates) e “Uma narrativa de viagens na Amazônia e no Rio Negro: com um relato das tribos nativas e observações sobre o clima, geologia e história natural do vale do Amazonas” (Alfred Russel Wallace).

Por Clara Machado


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