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Mudanças Climáticas, com André Junqueira

19 de Maio de 2021 às 19:54

Por Clara Machado

ENTREVISTA-ANDRE

As mudanças climáticas afetam as áreas biodiversas em todo o planeta, e cientistas preveem a redução drástica de populações de espécies nativas importantes para a economia agroextrativista. Na Amazônia, a vulnerabilidade dos ecossistemas frente às mudanças climáticas se estende às comunidades rurais, que dependem economicamente do manejo de recursos naturais.
Para conversar sobre esse tema, convidamos o Doutor em Ecologia André Junqueira, que participou de uma investigação sobre os impactos das mudanças climáticas na biodiversidade e seus efeitos no modo de vida tradicional das comunidades do Médio Juruá, através de entrevistas e monitoramentos pesqueiro, do nível de água e de tabuleiros, além de modelagem estatística para previsão de efeitos futuros. André Junqueira é biólogo, doutor em Ecologia pela Universidade de Wageningen, na Holanda. Atualmente, André é pesquisador pós-doutor no Institut de Ciència i Tecnologia Ambientals (ICTA) da Universitat Autònoma de Barcelona (UAB), no âmbito do projeto “Local Indicators of Climate Change Impacts”.

Ouça a entrevista aqui.

INSTITUTO JURUÁ. Como as mudanças climáticas afetam a Amazônia e a sua biodiversidade? Quais são as principais preocupações em relação ao futuro da região nesse sentido?
ANDRÉ JUNQUEIRA. As mudanças climáticas são um fenômeno que acontece no mudo inteiro, embora alguns lugares sejam mais afetados do que outros, e essas mudanças também influenciam a Amazônia. Algumas mudanças das mais importantes que têm sido registradas nas últimas décadas são o aumento expressivo de temperatura, de quase um grau, nos últimos 40 anos, mudanças nos regimes de precipitação, que leva à mudanças na dinâmica sazonal dos rios, como a época da cheia e seca. E essa dinâmica dos rios está muito conectada com a dinâmica das chuvas e por isso também está sendo afetada. Essas mudanças não afetam a Amazônia como um todo de maneira homogênea, algumas regiões são mais ou menos afetadas do que outras. No caso das chuvas, temos até padrões inversos dependendo do local da bacia, então a região mais ao leste e sudeste da Amazônia já na transição para outros biomas tende a ficar mais seca, enquanto que a oeste da Amazônia, na área mais próxima aos Andes, são áreas que estão ficando mais chuvosas. Uma série de mudanças no sistema climático e hidrológico da Amazônia geram consequências nos sistemas biológicos e humanos. Algumas regiões têm ficado cada vez mais secas, e por isso mais susceptíveis ao fogo, em alguns lugares, de acordo com as previsões baseadas em modelos, as espécies vão mudar muito a sua área de ocorrência natural frente às mudanças no clima. Os eventos extremos, como grandes cheias e grandes secas, são eventos que ocorrem naturalmente na Amazônia, e estão ligados a ciclos climáticos naturais como El Niño e La Niña, mas esses eventos têm ficado cada vez mais frequentes. Todos esses efeitos nas chuvas, nos rios e nas espécies, tem diversas consequências para as comunidades locais que dependem e interagem diretamente com o ambiente e portanto com essas mudanças, que já foram detectadas nas últimas décadas, mas tendem a se intensificar no futuro.

INSTITUTO JURUÁ. O trabalho que você realizou junto a outros pesquisadores no Médio Juruá demonstra os impactos que já estão afetando diretamente o modo de vida nas comunidades por causa das mudanças climáticas, principalmente o aquecimento global. Você poderia contar um pouco mais sobre como foram as entrevistas, os principais impactos relatados pelas comunidades e o que mais te chamou a atenção nesses relatos?
ANDRÉ JUNQUEIRA. Esse foi um trabalho que fizemos em 2020, mas que tem raízes mais profundas, o Instituto Juruá está atento a essas questões já faz um tempo. Mas nós mergulhamos mais profundamente em como os moradores do Médio Juruá estão percebendo essas mudanças e quais as consequências que essas mudanças estão gerando no seu modo de vida. O conhecimento científico sobre as mudanças climáticas encontra suas correspondências no conhecimento local. Quase todos falaram sobre o clima mais quente, os desconfortos físicos, e associam à maior ocorrência de alguns tipos de doenças. É praticamente unânime, dentre as pessoas que entrevistamos, a ideia de que ninguém aguenta mais por muito tempo o trabalho na roça porque está muito quente. Além disso, existe a percepção de que o regime de chuva está mais imprevisível, e a percepção de que, no geral, tem chovido mais. Isso tem implicações em diversas atividades, por exemplo na agricultura. A ideia de que os ciclos dos rios estão mudando também é muito comum, ou seja, de que as grandes secas e grandes cheias estão mais frequentes e mais intensas. Sabemos que a coleta de sementes, como as de andiroba, murumuru e ucuuba, é uma atividade econômica muito importante para diversas comunidades no rio Juruá. Essas espécies ocorrem nas áreas de várzea, que são periodicamente alagáveis, e existe a percepção de que as grandes cheias causam maior mortalidade dessas espécies e atrapalham a atividade de coleta. É interessante que existe a ideia de que essas grandes cheias podem também ter efeitos positivos, por exemplo de que no ano seguinte a essas grandes cheias a pesca é favorecida. De fato, a maioria dos efeitos das mudanças climáticas são negativos, mas quando olhamos para as percepções refinadas das pessoas, vemos que existe uma complexidade de consequências, que só conseguimos observar porque estamos ouvindo isso dos ribeirinhos. No geral, foi um campo incrível, como sempre fomos muito bem recebidos pelas comunidades, abriram as portas das casas e dividiram com a gente um pouco das suas histórias e seus conhecimentos sobre as mudanças climáticas. E é um trabalho que está só começando, pois tivemos que adiar algumas coisas por conta da pandemia, mas que certamente terão outros desdobramentos.

INSTITUTO JURUÁ. Lendo o seu trabalho, uma questão muito interessante é a sensibilidade dos moradores do Médio Juruá em relação a percepção do ambiente, como por exemplo a ideia de que “quando determinada planta floresce, sabemos que a cheia vai ser grande” ou “a água sobe até a altura onde o aruá (Megalobulimus sp.) coloca seus ovos”. É uma sensibilidade que escapa ainda à ciência, não é?

ANDRÉ JUNQUEIRA. Sem dúvida! Além de perceberem muito detalhadamente as mudanças no ambiente, as pessoas também têm suas estratégias para prever o que vai acontecer. Esses indicadores são observados nas plantas, no comportamento dos animais... Porém, há também a ideia de que, com as mudanças climáticas, esses indicadores estão ficando menos confiáveis. Então, é um conhecimento ancestral, super detalhado, desenvolvido a partir de uma relação muito estreita com o ambiente, mas que está sendo também desafiado pelas novas mudanças que estão acontecendo recentemente.

INSTITUTO JURUÁ. O Médio Juruá está enfrentando hoje uma grande enchente, que obrigou muitas famílias a abandonarem suas casas em meio à pandemia, alagou roçados e causou um prejuízo imenso às comunidades rurais. Nós precisamos nos preparar para a ocorrência mais frequente desses eventos? Devemos tomar medidas estratégicas de mitigação ou de emergência para esses eventos?
ANDRÉ JUNQUEIRA. O conhecimento científico e o tradicional convergem apontando para um futuro onde essas situações serão, sim, mais frequentes. Então, as estratégias para lidar com essas mudanças e se preparar para elas, o que chamamos de estratégias adaptativas, são muito importantes. As populações locais já têm feito isso. Essas mudanças não começaram a acontecer hoje ou ontem, já tem um tempo que eles lidam com elas, então eles também modificam as suas maneiras de fazer e entender as coisas, com base no que está acontecendo. Por exemplo, a ideia de que as casas devem ser construídas mais altas ou a própria arquitetura mais alta e arejada por conta da temperatura. Eles têm também modificado o momento de trabalhar na roça, para evitar as horas mais quentes do dia. Existe um conjunto de reações às mudanças climáticas que já estão sendo implementadas, e a nossa ideia é identificar, junto aos ribeirinhos, as ideias com maior potencial de serem replicadas e as que já foram testadas e não deram certo, para que esse conhecimento possa ser compartilhado entre as comunidades. É um acervo de conhecimentos, práticas e informações enorme que eles têm, e o que estamos fazendo neste trabalho é somente dar voz e sistematizar esse conhecimento, mas são os ribeirinhos os grandes conhecedores e especialistas em identificar e desenvolver essas estratégias para lidar com esses efeitos.

INSTITUTO JURUÁ. Um estudo publicado por Evangelista-Vale e colaboradores na Biological Conservation, indica que algumas espécies importantes para o agroextrativismo, como a castanha, a andiroba, a copaíba e o açaí, podem ter suas populações reduzidas de forma significativa nos próximos 30 anos, e unidades de conservação podem perder a sustentabilidade de suas atividades extrativistas. Tendo em vista que nós ainda estamos engatinhando na construção das cadeias de valor da biodiversidade amazônica, como você avalia o futuro do agroextrativismo frente a uma ameaça como essa?
ANDRÉ JUNQUEIRA. De fato é uma ameaça muito grande. Esse trabalho mostrou como diversas espécies que são muito importantes, economicamente e culturalmente, para diversas comunidades ribeirinhas, indígenas, quilombolas vão tender a ficar mais reduzidas no futuro, ou pelo menos restritas a áreas menores. Isso é um efeito das mudanças climáticas, e significa que as populações que estão hoje em áreas, onde no futuro essas espécies vão tender a desaparecer, vão ter as atividades agroextrativistas muito ameaçadas. E várias dessas espécies são fundamentais para subsistência, para renda… então, pensar em condições climáticas futuras é uma coisa que deve fazer parte do planejamento futuro dessas cadeias produtivas. Outra coisa importante também para se fazer nesse sentido é a diversificação das atividades produtivas, então se você depende de uma espécie que no futuro vai ser muito mais rara na sua área de ocorrência, você está muito mais em risco do que se você depender de várias espécies. Então, uma base de atividades mais diversa, como é o caso do Médio Juruá, é uma estratégia resiliente a essas mudanças climáticas. Esses modelos predizem que a ocorrência natural dessas espécies tende a diminuir, mas a gente sabe que sistemas produtivos desenvolvidos atualmente pelas comunidades ribeirinhas e outras comunidades na Amazônia, que envolvem, por exemplo, sombreamento, sistemas agroflorestais e manejo intensivo, cria condições muito específicas, e muito favoráveis para o desenvolvimento de algumas plantas. Então, é possível que a andiroba passe a ter sua ocorrência natural na floresta cada vez mais rara, mas que os sistemas de manejo favoreçam a manutenção da espécie ali. O fato de esses modelos indicarem a redução da ocorrência delas no futuro não significa, necessariamente, que elas vão desaparecer por completo. Mas ainda assim, é uma situação muito preocupante, porque muitas dessas espécies em sistemas agroflorestais são extraídas de ecossistemas naturais. O açaí, por exemplo, embora a gente tenha o açaí cultivado, grande parte é extraído do meio da floresta, no caso do Juruá. Então, se essa é uma espécie ameaçada no futuro, realmente isso vai representar um impacto bastante importante.

INSTITUTO JURUÁ. Você acha que a perda da sustentabilidade das Unidades de Conservação pode gerar maior disputa por esses territórios, que são concedidos pela União?

ANDRÉ JUNQUEIRA. Eu acho que não só essa questão da redução na distribuição de algumas espécies mas diversas outras ameaças que circundam, e que já estão dentro da Amazônia, tendem a exacerbar alguns desses conflitos. O próprio desmatamento, a savanização da Amazônia, a redução de áreas suscetíveis para a ocorrência de algumas espécies importantes, e diversas mudanças relacionadas ao uso da terra já estão trazendo vários desafios, e quando sobrepostas às mudanças climáticas, tornam esses desafios ainda maiores. Se fossem só as mudanças climáticas, já seria um desafio enorme, se fosse só desmatamento ou mudança de uso da terra, também. Mas o que temos agora é a sobreposição dessas coisas. Além de um efeito de causa e consequência, pois há evidências que mostram que, numa escala regional, o desmatamento influencia na dinâmica hidrológica, então, não é só a mudança climática a nível global que afeta a Amazônia, mas mudanças a nível regional também. Estamos em um cenário em que a Amazônia já está, e ainda vai ficar, diante de outras ameaças. E por isso é importante identificar exemplos bem sucedidos de estratégias que aumentam a resiliência das comunidades em relação às mudanças climáticas, que aumentam a resiliência dos sistemas produtivos nas mudanças climáticas, e por consequência, também aumentam a resiliência desses sistemas a outras mudanças, a outras pressões, que tendem a se intensificar nas próximas décadas.

INSTITUTO JURUÁ. Como as comunidades agroextrativistas e o modo de vida tradicional na Amazônia podem colaborar com a ciência e com os tomadores de decisão no enfrentamento às mudanças climáticas?
ANDRÉ JUNQUEIRA. Existe um certo paradoxo nas populações tradicionais, porque ao mesmo tempo em que elas são bastante vulneráveis às mudanças climáticas, elas também trazem um potencial enorme, por motivos similares. As populações tradicionais, no mundo como um todo, compartilham uma conexão histórica com o ambiente, uma dependência muito grande e uma relação estreita, que vai até para planos metafísicos, para além da relação utilitarista. Essa relação e essa dependência muito direta com o ambiente é o que coloca essas populações numa posição de vulnerabilidade em relação às mudanças climáticas, porque se essas mudanças afetam o ambiente, do qual essas pessoas dependem tanto, suas vidas serão diretamente afetadas. Ao mesmo tempo, justamente por essa relação histórica e estreita, eles desenvolveram um conhecimento riquíssimo sobre o ambiente. Então, esse conhecimento tradicional, ancestral e histórico, é o instrumento pelo qual essas populações são capazes de identificar mudanças, às vezes, muito sutis, e que são desconhecidas pela ciência. Esse é um dos motivos pelos quais tem havido, cada vez mais, interesse global de olhar pro conhecimento tradicional sobre mudanças climáticas, justamente por causa desse nível de detalhe que existe nessa observação das populações locais. Nós vemos isso na esfera acadêmica, mas também em instituições de tomada de decisão e em instrumentos políticos, como por exemplo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e na Organização das Nações Unidas (ONU). Os últimos relatórios dessas organizações reconhecem a importância de se incorporar a forma de conhecer o mundo das comunidades locais ao nosso entendimento das mudanças climáticas. E a ideia é olhar para esses diferentes sistemas de conhecimento sem juízo de valor, sem tentar validar um baseado no outro, mas pensar neles como sistemas de conhecimento igualmente válidos. Cada um tem a suas limitações e também as suas forças pra gente entender esse fenômeno tão complexo que são as mudanças climáticas. A ideia de olhar pro conhecimento local é para, primeiramente, trazer esse conjunto de informações super ricas sobre essas mudanças. Além disso, a gente não tem dados meteorológicos muito bons para vários lugares do mundo, mas a gente tem pessoas morando nesses lugares, e o conhecimento local também pode suprir grandes vazios de informação. E existe, também, uma questão ética nisso tudo, no qual essas populações, que estão sendo diretamente afetadas pelas mudanças climáticas, devem fazer parte da construção desse conhecimento e do processo de tomada de decisão. Não pode o IPCC ou a ONU decidirem quais vão ser as estratégias para as mudanças climáticas sem ouvir as populações que são, justamente, as mais afetadas por elas. É por tudo isso que é dado cada vez mais importância ao conhecimento tradicional para entender as mudanças climáticas e para desenvolver estratégias de mitigação dos seus efeitos. Esse é nosso intuito de trabalho lá no Juruá, de dar voz à essas populações, e de alguma maneira, trazer à luz esses conhecimentos sobre as mudanças que estão acontecendo ali na região.


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Interviews

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