Comunicação

Cultura popular e as festividades do Médio Juruá

Por: Maria Cunha

As festividades de cultura popular são expressões vivas da identidade de um povo. Elas transcendem o ato de celebrar, sendo espaços de memória, resistência e transmissão de saberes ancestrais. Enraizadas nas tradições, crenças e práticas coletivas, essas manifestações refletem a diversidade cultural de regiões, comunidades e grupos sociais.  Festas juninas, congados, maracatus, folias de reis, bumba meu boi, carimbó, frevo e tantas outras festividades são exemplos da riqueza cultural brasileira. Cada uma carrega símbolos, ritmos, danças, vestimentas e narrativas que remontam a histórias de encontros e desencontros entre povos originários e os diversos povos que habitam estas terras. 

Essas celebrações não são apenas momentos de lazer; são atos políticos e sociais que reafirmam identidades e promovem organização comunitária e o pertencimento territorial. Elas fortalecem laços, preservam, culinárias e modos de vida, sendo um elo entre o passado e o presente. Em um mundo cada vez mais globalizado, onde há o risco da homogeneização cultural, valorizar e proteger as festividades de cultura popular é essencial. Elas nos lembram da importância da diversidade, da criatividade coletiva e da capacidade humana de reinventar o cotidiano através da arte e da tradição.  As festividades de cultura popular nas comunidades locais do Médio Juruá são mais do que simples celebrações; elas são manifestações ricas e complexas que traduzem a identidade, as crenças, os valores e a história de um povo. Muitas dessas festas têm raízes profundas, conectando as gerações atuais com as tradições de seus antepassados. Elas desempenham um papel vital na preservação do patrimônio cultural, oferecendo um espaço para que as práticas e os saberes locais sejam vivenciados e transmitidos.

Reunião comunitária para organização de eventos. Foto: Maic Ferreira

Essas festividades podem ter diferentes formas e significados, dependendo do contexto regional. Um dos principais aspectos é o caráter comunitário e participativo. Não se trata apenas de uma comemoração individual, mas de uma celebração coletiva, em que a união do povo fortalece os laços sociais e culturais. Cada evento é uma oportunidade para reforçar a conexão entre as pessoas, a terra, a natureza e os elementos espirituais e do imaginário popular que compõem a cosmovisão local.

Dentre as mais comuns estão as festas religiosas, pela região, mais conhecida como “festejos” que geralmente acontecem em homenagem a santos, ou eventos significativos do calendário cristão, mas também podem ter origem em tradições indígenas. As celebrações religiosas, como as festas de santos padroeiros, são marcadas por rituais que envolvem procissões, missas, cânticos e outras manifestações de fé. Mas muitas dessas festas também trazem à tona aspectos culturais que vão além da religiosidade, com danças, músicas e comidas típicas que revelam a rica diversidade cultural de cada região.

Foto esquerda: Almoço do festejo em honra a São Raimundo, na comunidade São Raimundo. Foto direita: momento de refeição em festejo comunitário. Fotos: Rodrigo Pires 

O festejo é uma homenagem que a gente faz ao santo em agradecimento e também fortalecimento de fé, para que a gente tenha mais saúde e prosperidade na comunidade. Sempre acontece quando a comunidade tem o nome de um santo, ou algum morador fez promessa ao santo; e, em agradecimento, a sua benção recebida, oferece também o festejo’’ Francisca moura da cunha – Comunidade São Raimundo.

Algumas referências de festejos de santos, como essas, são visualizadas ao longo do rio em comunidades diferentes: São Raimundo, São Sebastião, São Francisco das Chagas, São Lázaro, São José, São Pedro, Nossa Senhora da Conceição, São Brás – são alguns dos nomes celebrados na região.

Os festejos de santos nas comunidades tradicionais são expressões vibrantes de fé, cultura e identidade coletiva. Enraizados em uma mistura de tradições religiosas e saberes populares, esses eventos vão muito além do aspecto espiritual, representando momentos de fortalecimento dos laços comunitários e celebração da vida. Costumam ser dias de feriado e trazem consigo o respeito e a colaboração de todos.

Cada comunidade tem seus santos padroeiros, e os festejos são organizados com grande dedicação. As preparações começam semanas antes, com a decoração das capelas (igrejas) e espaços comunitários, a organização de procissões e novenas, e o planejamento das atividades culturais. As festas são marcadas por missas, cantorias, danças tradicionais, rodas de conversas e partilha de alimentos típicos, como beiju, tapioca, macaxeira, peixe assado,  frango de granja ou caipira, “cortadinho de porco” e o tradicional e mais famoso “batido de tartaruga”. Essas organizações, tanto dos pratos, quanto da ornamentação de espaços, geralmente, são conduzidas pelas mulheres; mesmo que os homens também colaborem, são elas que estão à frente.

Essas manifestações culturais são fundamentais para o fortalecimento da identidade local. Elas não só celebram o que é, mas também ensinam as gerações mais jovens sobre a importância de suas raízes e de sua história. Em tempos de globalização, onde as culturas locais correm o risco de se diluir, as festividades populares tornam-se um espaço de resistência, preservação e renovação cultural. Além disso, elas desempenham um papel de inclusão, reunindo pessoas de diferentes gerações, classes sociais e etnias em torno de um objetivo comum: celebrar a vida e as tradições que os tornam únicos.

O caráter comunitário é uma das principais características destes festejos. Famílias se reúnem, vizinhos cooperam na preparação das atividades, e há uma circulação de saberes, onde crianças aprendem com os mais velhos sobre a importância da tradição e da espiritualidade. O ritual do terço coletivo, por exemplo, onde todos se reúnem para rezar, simboliza não apenas a devoção, mas também a força da coletividade.

Casa de dona Noêmia, na comunidade São Raimundo. Símbolos e imagens de santos, santas e elementos da natureza são expressos no tecido social, das mais diversas maneiras.
Foto: Jaqueline Orlando

No Médio Juruá, celebrar os santos também engloba celebrar a resistência cultural, a memória coletiva e o profundo respeito pela natureza, que também é parte integrante da espiritualidade, da arte e do imaginário das comunidades tradicionais. Portanto, na sua capacidade de unir diferentes gerações e promover o diálogo entre o sagrado e o cotidiano, as celebrações culturais do Médio Juruá preservam memórias coletivas, reforçam laços comunitários e mantêm vivas as expressões culturais que ajudam a definir a identidade dessa região. São pilares da identidade comunitária, onde fé, cultura e tradição se entrelaçam. Mais do que eventos religiosos ou festejos populares,  são espaços de resistência, aprendizado e fortalecimento dos laços sociais, transmitindo às novas gerações os valores e saberes que sustentam a vida nas comunidades. Preservá-las é garantir que essa herança cultural continue viva, reforçando a importância da diversidade e do espírito comunitário em um mundo cada vez mais globalizado.

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