Pesquisa liderada pelo Instituto Juruá no TMJ investiga se o manejo de oleaginosas pode conciliar geração de renda e conservação da floresta.
Por: Neyde do Carmo
Entre os dias 09 de outubro e 18 de novembro, o rio Juruá voltou a ser estrada, laboratório e sala de aula. Em uma nova excursão de campo, equipes técnicas e comunitários locais percorreram comunidades ribeirinhas do Território Médio Juruá para dar continuidade ao monitoramento ecológico das cadeias de oleaginosas, um trabalho silencioso, paciente e estratégico que já completa três anos.

Equipe escalada para o último campo.
Foto: Neyde do Carmo/ Acervo Instituto Juruá.
Ao longo do trajeto, que conecta comunidades situadas dentro e fora da RDS Uacari e da RESEX Médio Juruá, o grupo visitou 10 comunidades participantes do projeto. Em cada uma delas, quatro áreas permanentes são acompanhadas de forma sistemática: duas áreas de coleta e duas áreas sem coleta de sementes oleaginosas, permitindo comparar como a floresta responde ao uso sustentável.
Cada parcela (0,5ha) é demarcada como um território de observação contínua. Ali, cada árvore conta uma história. São monitorados todos os indivíduos (adultos, juvenis e plântulas) de andiroba, murumuru, ucuúba e açaí. Com fita métrica, trena e cadernos de campo, são registradas a altura, o diâmetro, a mortalidade e a natalidade das espécies. Ano após ano, os dados revelam padrões de crescimento, regeneração e resistência.

Trabalho de demarcação, inventariação e monitoramento dos indivíduos florestais.
Foto: Neyde do Carmo/ Acervo Instituto Juruá.
O trabalho já soma 40 parcelas de inventário florestal monitoradas, formando uma base de dados robusta sobre a dinâmica ecológica das espécies que sustentam as cadeias produtivas locais. Mais do que medir árvores, o projeto busca responder a uma pergunta central: é possível produzir e conservar ao mesmo tempo? A comparação entre áreas com e sem coleta ajuda a construir essa resposta com base científica.
Nos últimos ciclos, uma nova espécie passou a integrar o monitoramento: o açaí (Euterpe precatoria), cuja importância econômica vem crescendo no território. A inclusão reflete a transformação da realidade produtiva regional e fortalece o acompanhamento de uma cadeia que ganha cada vez mais protagonismo entre as comunidades.
O monitoramento, realizado há três anos consecutivos, começa a formar uma série histórica essencial para análises mais consistentes. A expectativa é que o acompanhamento siga por pelo menos mais dois anos, ampliando a compreensão sobre os impactos do manejo e garantindo decisões cada vez mais embasadas.
Os dados e aprendizados gerados ganharam novos espaços de diálogo poucos meses depois. Entre os dias 27 e 29 de janeiro de 2026, durante o III Encontro de Cadeias Produtivas de Oleaginosas do Médio Juruá, promovido pela AMARU, CODAEMJ, Memorial Chico Mendes e parceiros na RDS Uacari, esse projeto de pesquisa foi apresentado por colaboradoras do Instituto Juruá a produtores, técnicos e parceiros da região. A socialização dos dados fortaleceu o diálogo entre ciência e prática comunitária, reafirmando que o monitoramento ecológico é parte estratégica da governança das cadeias produtivas e da construção de decisões baseadas em evidências no território.
No Médio Juruá, o trabalho de campo é também um exercício de parceria. Coletores acompanham as medições, reconhecem as espécies, compartilham saberes e ajudam a interpretar os sinais da floresta. Entre anotações técnicas e conversas à sombra das árvores, constrói-se um modelo em que conhecimento tradicional e pesquisa científica caminham lado a lado.
Ao final de cada expedição, o que fica não é apenas uma planilha atualizada, mas a certeza de que a floresta segue viva e de que seu futuro depende do equilíbrio entre uso responsável e cuidado permanente.





