Da coleta à interpretação dos dados, a iniciativa reconhece que o conhecimento da biodiversidade amazônica depende tanto das ferramentas científicas quanto da experiência acumulada por quem vive na floresta, nos rios e nas áreas de várzea.
Por: Indiara Bessa
Entre os meses de abril e maio de 2026, o Médio Juruá recebeu a primeira expedição de campo do projeto “Entre Rios e Saberes no cuidado comunitário da biodiversidade amazônica”, iniciativa de pesquisa que une saberes tradicionais, ciência participativa e monitoramento ambiental para fortalecer a conservação comunitária da biodiversidade amazônica em territórios do Brasil e do Peru.
Realizada em Carauari, no Amazonas, a expedição reuniu, ao longo de aproximadamente um mês, cerca de 30 pessoas, entre pesquisadores, estudantes e colaboradores locais. O principal objetivo desta primeira etapa foi instalar parcelas de pesquisa e iniciar a coleta de dados sobre a biodiversidade da região, criando uma base para estudos de longo prazo sobre fauna, flora, ambientes aquáticos, solos e características ecológicas e socioambientais do território.

As atividades começaram com a instalação de 15 parcelas uniformes, 12 parcelas ripárias e 26 parcelas aquáticas, totalizando 53 parcelas RAPSELD. O termo RAPSELD é uma adaptação do sistema RAPELD, metodologia de amostragem ecológica criada para integrar levantamentos rápidos de biodiversidade, conhecidos como RAP, com pesquisas ecológicas de longa duração, os PELD. No projeto, a sigla incorpora o “S” de sociobiodiversidade e socioecologia, reforçando a importância de compreender a biodiversidade amazônica em diálogo com os modos de vida, os conhecimentos e as práticas de manejo das comunidades locais.
As parcelas instaladas no Médio Juruá servirão como referência para o acompanhamento da biodiversidade ao longo do tempo. A partir delas, será possível gerar informações mais detalhadas sobre os ambientes estudados e acompanhar possíveis mudanças ecológicas, contribuindo para estratégias de conservação, manejo sustentável e fortalecimento da gestão comunitária dos territórios.
Após a instalação das parcelas, a equipe se dividiu em diferentes frentes de pesquisa. Na botânica, foram realizadas medições da altura e do diâmetro de árvores e palmeiras, além do registro de espécies vegetais utilizadas pelos moradores locais. A equipe de herpetologia realizou amostragens de anfíbios e répteis, enquanto o grupo responsável pelos mamíferos terrestres instalou armadilhas fotográficas em 27 parcelas RAPSELD para monitorar espécies de médio e grande porte.



Atividades realizadas para coleta de dados. FOTO: André Dib/Instituto Juruá
Também foram instalados gravadores autônomos para registrar a avifauna por meio das vocalizações, permitindo identificar aves presentes nos diferentes ambientes. Em todas as parcelas, foram coletadas amostras de solo para análises físicas, químicas e biológicas. Já nos ambientes aquáticos, a equipe realizou amostragens de peixes e camarões em 17 parcelas, ampliando o conhecimento sobre a diversidade dos rios, igarapés e áreas alagadas da região.



Alguns registros da diversidade de aves presentes no território. Foto: André Dib/Instituto Juruá
Além da produção de dados científicos, um dos pontos centrais da expedição foi a participação ativa dos povos e comunidades tradicionais em todas as etapas do trabalho de campo. Moradores locais contribuíram para a identificação de espécies, a leitura dos ambientes, a orientação nos deslocamentos e a compreensão das dinâmicas ecológicas observadas. Esse diálogo entre conhecimento científico e conhecimento tradicional é uma das bases do projeto.
A participação comunitária, no entanto, não se restringiu ao apoio logístico. Pescadores, extrativistas, jovens e colaboradores locais atuaram como parte da equipe de pesquisa, participando diretamente da coleta de dados e da construção do conhecimento em campo. Suas contribuições também deverão ser reconhecidas na produção científica gerada pelo projeto, incluindo autoria em publicações resultantes dos estudos.
O projeto prevê a instalação de dois módulos RAPSELD: um no Médio Juruá, em Carauari (Brasil), e outro no território de Nueva Cajamarca, em Sarayacu (Peru). Entre as ações previstas estão inventários de plantas, integração de saberes tradicionais e etnoespécies, cursos, oficinas, formações técnicas, produção de materiais educativos e atividades voltadas ao fortalecimento da ciência cidadã e do manejo sustentável.
Ao colocar as comunidades no centro do processo de pesquisa, o Entre Rios e Saberes propõe uma forma de produzir ciência conectada aos territórios. Da coleta à interpretação dos dados, a iniciativa reconhece que o conhecimento da biodiversidade amazônica depende tanto das ferramentas científicas quanto da experiência acumulada por quem vive na floresta, nos rios e nas áreas de várzea.

Comunidade Marapatá, que dá acesso à base de pesquisa no Lago do Surara. Foto: André Dib/Instituto Juruá
Este primeiro campo em Carauari representa um passo importante para a consolidação de uma rede de pesquisa colaborativa entre Brasil e Peru. Mais do que registrar espécies e ambientes, a expedição fortalece uma agenda de conservação construída com participação comunitária, valorização dos saberes locais e compromisso com o futuro da sociobiodiversidade amazônica.
O projeto Entre Rios e Saberes é financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico Tecnológico e Científico – CNPq, por meio da chamada Pró-Amazônia; recebe apoio do Centro de Estudos Integrados da Biodiversidade Amazônica – CENBAM/INPA e do Programa de Pesquisa em Biodiversidade – PPBio Amazônia Ocidental.





