Na reportagem, Hugo Costa, co-fundador do Instituto Juruá, também é entrevistado e aponta o manejo como uma experiência que inspira esperança. Sua fala reforça a importância de apoiar iniciativas que nascem dos territórios e que mostram, na prática, que comunidades organizadas são fundamentais para conservar a Amazônia e construir alternativas econômicas sustentáveis.
Por: Indiara Bessa
O manejo comunitário do pirarucu no Médio Juruá ganhou destaque internacional em uma reportagem especial publicada pela revista Science, uma das mais reconhecidas revistas científicas do mundo. A matéria, intitulada The power of a fish, apresenta a força de um modelo construído ao longo de quase duas décadas por comunidades ribeirinhas, associações locais, pesquisadores e instituições parceiras.
O texto acompanha experiências de comunidades como São Raimundo (RESEX do Médio Juruá) e Concórdia (Acordo de Pesca do Baixo Carauari), Amazonas, mostrando como a proteção dos lagos e o manejo sustentável do pirarucu têm transformado a realidade local. A reportagem evidencia que, onde antes havia forte pressão da pesca ilegal e redução das populações de pirarucu, hoje há aumento dos estoques pesqueiros, geração de renda, fortalecimento da organização comunitária e melhoria nas condições de vida.

Mais do que uma história sobre essa espécie emblemática da Amazônia, a matéria mostra como o manejo comunitário do pirarucu se tornou uma estratégia de proteção territorial. Ao cuidar dos lagos, as comunidades também ajudam a proteger extensas áreas de floresta, rios e ambientes de várzea, contribuindo para a conservação da biodiversidade, para a organização social e para a defesa dos territórios frente a ameaças como invasões, pesca ilegal e outras pressões externas.
A reportagem também destaca resultados concretos alcançados ao longo do tempo. Em comunidades envolvidas no manejo, a renda gerada pela comercialização do pirarucu tem contribuído para melhorias coletivas, como acesso à energia, infraestrutura comunitária, educação, comunicação e maior permanência das famílias em seus territórios. Esses avanços mostram que a conservação pode caminhar junto com qualidade de vida quando as comunidades estão no centro das decisões.
Esse é um dos pontos mais importantes do trabalho desenvolvido no Médio Juruá: o conhecimento tradicional e a ciência não aparecem como caminhos separados, mas como saberes que se fortalecem mutuamente. A contagem dos peixes, a vigilância dos lagos, a definição das cotas de pesca e a organização das atividades envolvem diretamente moradores e moradoras, guardiões, pescadores, lideranças e associações comunitárias.
Na reportagem, Hugo Costa, co-fundador do Instituto Juruá, também é entrevistado e aponta o manejo como uma experiência que inspira esperança. Sua fala reforça a importância de apoiar iniciativas que nascem dos territórios e que mostram, na prática, que comunidades organizadas são fundamentais para conservar a Amazônia e construir alternativas econômicas sustentáveis.
O trabalho do Instituto Juruá dialoga diretamente com essa trajetória. A atuação da instituição tem se consolidado a partir da assessoria técnica, do desenvolvimento de pesquisa aplicada, do fortalecimento das associações locais e da construção conjunta de soluções voltadas à gestão dos territórios e dos recursos naturais. No caso do pirarucu, esse apoio se soma ao protagonismo das comunidades e das organizações locais, que conduzem o manejo e sustentam, ano após ano, os resultados alcançados.
A publicação na Science representa um reconhecimento internacional de uma história que vem sendo construída há muito tempo no Médio Juruá. Uma história de organização comunitária, ciência colaborativa, proteção dos territórios e valorização dos modos de vida ribeirinhos.
Mais do que o “poder de um peixe”, como sugere o título da reportagem, o que se revela é a potência das comunidades amazônicas quando seus direitos, conhecimentos e formas de gestão são respeitados e fortalecidos.





