Equipes do Instituto Juruá estiveram presentes em diferentes territórios do Amazonas, ribeirinhos e indígenas, para planejar o manejo sustentável do pirarucu, revisar acordos e regimentos internos e garantir a conservação dos lagos e a governança territorial para a sociobioeconomia.
Por: Indiara Bessa, com contribuições de Neyde do Carmo e Victoria Paula
Entre os meses de maio e junho de 2026, equipes do Instituto Juruá estiveram presentes em diferentes territórios do Amazonas para realizar atividades voltadas ao fortalecimento dos acordos de pesca, à governança comunitária e ao manejo sustentável dos recursos pesqueiros. As ações envolveram comunidades, associações, lideranças indígenas, manejadores, instituições parceiras e órgãos públicos em processos de avaliação, planejamento, construção de regras coletivas e diálogo sobre novas estratégias de proteção dos ambientes aquáticos.
Essas iniciativas reforçam a importância dos acordos de pesca como instrumentos fundamentais para a conservação dos lagos, a organização comunitária, a segurança alimentar, a geração de renda sustentável e a proteção territorial. Em cada território, os debates partiram das realidades locais e das demandas apresentadas pelas próprias comunidades, fortalecendo processos participativos de tomada de decisão.
Em Itamarati, representantes do Comitê Gestor da Pesca se reuniram para avaliar a Pesca Experimental Manejada de 2025 do acordo de pesca do município. O encontro, realizado no dia 29 de maio, permitiu analisar os resultados alcançados, os desafios enfrentados e os encaminhamentos necessários para o planejamento da pesca de 2026.
A avaliação destacou o cumprimento integral da cota de pirarucu prevista para 2025, resultado que evidencia o compromisso dos manejadores com as práticas de manejo sustentável. Também foram discutidas melhorias relacionadas à logística, comunicação, infraestrutura, transporte, comercialização e apoio às equipes comunitárias envolvidas na atividade.
Ainda em Itamarati, a Comunidade Refúgio realizou, nos dias 26 e 27 de maio, uma oficina participativa para construção do Regimento Interno do Manejo dos Lagos. O documento estabelece regras coletivas para vigilância, monitoramento, contagem de pirarucu, pesca manejada, comercialização, divisão dos benefícios, prestação de contas e aplicação de penalidades. A atividade também abriu espaço para o diálogo sobre os lagos compartilhados entre as comunidades Refúgio e Iracema, buscando superar conflitos e fortalecer a cooperação na gestão dos ambientes manejados. A construção do regimento representa um passo importante para a consolidação da governança comunitária e para a continuidade do manejo nos próximos anos.

Foto: Neyde do Carmo.
As ações também chegaram ao entorno da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus, no município de Beruri. Entre os dias 22 e 24 de maio, o Instituto Juruá, em parceria com a TNC Brasil, realizou reuniões em seis comunidades interessadas no acordo de pesca da região. Os encontros deram continuidade ao diálogo iniciado em 2024, quando foi elaborado um diagnóstico participativo que apontou a necessidade de revisar as regras existentes e incluir novas comunidades no processo. Durante as conversas, os comunitários reafirmaram o interesse na revisão do acordo e manifestaram o desejo de avançar em iniciativas como manejo do pirarucu, piscicultura sustentável e pesca comercial e ornamental de base comunitária.

Fotos: Victoria Paula.

Já no município de Carauari, entre os dias 19 e 23 de maio, comunidades do acordo de pesca da região abaixo da sede avançaram na construção e revisão de seus Regimentos Internos. A expedição contou com representantes da AMAB, Instituto Juruá, ICMBio e ASPROC, e contemplou oito comunidades. Três delas irão realizar pela primeira vez a pesca de seus ambientes manejados em 2026, enquanto outras cinco revisaram e atualizaram normas já existentes. Durante as reuniões, os comunitários discutiram critérios de participação, responsabilidades dos manejadores, vigilância dos lagos, prestação de contas, resolução de conflitos e fortalecimento dos acordos comunitários.
Na Terra Indígena Kulina do Rio Ueré, em Carauari, o diálogo sobre recursos pesqueiros também ganhou novos desdobramentos. Entre os dias 11 e 14 de maio, durante a II Assembleia Geral da Associação Indígena do Povo Kulina do Rio Ueré, realizada na Aldeia Matatibem, lideranças indígenas, professores, jovens, mulheres e representantes comunitários discutiram temas relacionados ao manejo participativo de pirarucu, vigilância territorial e ordenamento pesqueiro. As lideranças relataram preocupações com invasões, pesca predatória, caça ilegal, retirada irregular de madeira e circulação de pessoas externas no território. Como encaminhamento, foi iniciado um levantamento participativo das áreas de pesca e o processo de zoneamento dos lagos, criando uma base importante para futuras ações de planejamento territorial e proteção dos recursos naturais.

Foto: José da Silva Gomes.
Encerrando esse ciclo de atividades, a Comunidade Bauana sediou, entre os dias 1º e 3 de junho, o Encontro de Avaliação e Planejamento do Manejo de Lagos do Médio Juruá, tradicionalmente organizado pela ASPROC (Associação dos Produtores Rurais de Carauari) e parceiros. A atividade reuniu aproximadamente 225 participantes, entre comunitários, manejadores, lideranças, associações e instituições parceiras. Ao longo dos três dias, foram avaliados os resultados do Programa de Manejo de Lagos e discutidos desafios relacionados à vigilância, infraestrutura, comercialização do pescado, mudanças climáticas, participação de jovens e mulheres, proteção dos lagos e fortalecimento dos acordos de pesca. Os encaminhamentos definidos no encontro irão orientar as ações do programa ao longo de 2026 e 2027.

Foto: Neyde do Carmo.
Em conjunto, essas atividades demonstram a força dos processos construídos a partir dos territórios. Mais do que instrumentos de ordenamento, os acordos de pesca e os regimentos internos fortalecem a autonomia das comunidades, ampliam a participação social e contribuem para a conservação dos recursos pesqueiros. Ao apoiar esses processos, o Instituto Juruá reafirma seu compromisso com iniciativas que valorizam os modos de vida das populações locais e fortalecem a gestão comunitária dos ambientes aquáticos na Amazônia.





