Comunicação

Manejadoras de Pirarucu: a potência feminina dos territórios 

Por Maria Cunha 

A mulher é um ser protagonista  em cada tempo e cultura, ela carrega em si a força da criação, da resistência e da transformação. Seja nas lutas cotidianas ou nos grandes movimentos sociais, sua voz ecoa como um grito por igualdade, liberdade e dignidade.   Através dos séculos, as mulheres desafiaram as estruturas que tentaram silenciá-las. Conquistaram espaço na política, na ciência, na arte e em tantos outros campos onde, por muito tempo, foram subestimadas. Hoje, celebramos aquelas que abriram caminhos e inspiraram as que ainda virão.   Ser mulher é carregar histórias de coragem e resiliência. É ter o poder de transformar dor em luta, silêncio em voz, medo em liberdade. Mas também é viver desafios constantes, enfrentar desigualdades e, muitas vezes, precisa reafirmar direitos que deveriam ser garantidos.  O mundo precisa de mulheres livres, seguras e respeitadas. Cada conquista feminina não é apenas uma vitória individual, mas um passo para uma sociedade mais justa para todas e todos.   

Foto: Mulheres manejadoras comunitárias do Médio Juruá. Autoria: Maic Ferreira.

Dentro desse contexto, visualizamos as mulheres que fazem histórias nos territórios, nas suas comunidades, aldeias, e tantos outros espaços, mas que ainda são invisíveis para os olhos de quem vê de fora, ou, até mesmo, para quem faz parte dos processos internos.  A mulher da floresta é protagonista na preservação da natureza e no sustento de sua comunidade. Em cada ciclo da terra e das águas, ela carrega em si a força da criação, da resistência e da transformação. Seja no manejo sustentável dos recursos naturais ou na transmissão do conhecimento tradicional, sua voz ecoa como um grito por respeito, equilíbrio e justiça. Atravessando gerações, as mulheres da floresta desafiaram as adversidades e mantiveram vivas as práticas ancestrais. São pescadoras, agricultoras, parteiras, curandeiras, lideranças comunitárias e, muitas delas, manejadoras de pirarucu.   

No Manejo do Pirarucu, as mulheres transformam a pesca em empoderamento. Elas vêm conquistando espaço e redefinindo o papel feminino nessa cadeia produtiva sustentável. Sua atuação vai além, tornando-se um exemplo de liderança, resistência e sustentabilidade.  Em cada espaço onde navegam e em cada peixe que manejam, essas mulheres deixam uma marca de  sabedoria e esperança. Junto com suas comunidades, elas não apenas sustentam a vida nas águas da floresta, mas também escrevem um novo capítulo da história de seus territórios e da Amazônia, onde a força feminina é a verdadeira protagonista.

Fotos: Mulheres manejadoras da comunidade São Raimundo. Autoria: Maic Ferreira.

Para essas mulheres, o manejo do pirarucu vai além da conservação ambiental: é uma estratégia de fortalecimento econômico e empoderamento feminino. A renda gerada pela atividade proporciona maior independência financeira, superando os papéis que lhe foram delegados socialmente, como os  de apenas ser mãe e dona de casa. Além disso, o reconhecimento do trabalho das manejadoras reforça a importância da equidade de gênero dentro das comunidades ribeirinhas.

Algumas vozes que sempre viveram em silêncio, hoje conseguem se impor, falar e ser autônomas de sua fala, pois ao ingressarem no manejo, passaram a ser ouvidas e representadas  de forma mais equitativa dentro de suas comunidades. Elas agora ocupam espaços de decisão, participam de associações e influenciam políticas públicas voltadas para o desenvolvimento sustentável. A experiência também tem sido compartilhada entre elas em diferentes territórios, ampliando-se como uma “rede de mulheres manejadoras” que se conectam através da experiência e da realidade vivenciada por cada uma, promovendo uma troca de saberes essencial para o futuro de seus espaços comunitários.

Uma observação importante é olharmos para onde muitas mulheres se encontravam alguns anos atrás e como as iniciativas dos movimentos que abraçam suas causas têm transformado a suas vidas e suas vivências., bem como a vida de suas famílias e comunidades. Ferramentas de empoderamento feminino, permitindo que as mulheres conquistem espaço e redefinam o papel feminino nas cadeias produtivas sustentáveis, têm sido notáveis. Nessas cadeias, o manejo do pirarucu se destaca como sendo uma das principais atividades a gerar esse empoderamento, que vai além da independência financeira, perpassa pela equidade de gênero, a participação em decisões políticas e comunitárias, e chega ao que para muitas deram o nome de “LIBERDADE”.  A liberdade de cuidar do seu próprio dinheiro, de tomar suas próprias decisões, de se olhar e se sentir autônoma da sua própria rotina de vida e de afazeres. As manejadoras além de conquistar espaços deliberativos, também são hoje uma das peças fundamentais que determinam o bom desenvolvimento de qualquer cadeia produtiva da sociobiodiversidade. Além do trabalho árduo, essas mulheres enfrentam grandes desafios ainda, como o preconceito e a resistência de setores que ainda não reconhecem sua importância. No entanto, a persistência tem gerado resultados concretos: o aumento da renda familiar, a melhoria da segurança alimentar de suas famílias, seu empoderamento e fortalecimento das comunidades ribeirinhas que engloba o desenvolvimento também do território como um todo.

Fotos: Mulheres na evisceração, uma das atividades da cadeia produtiva. Autoria: Maic Ferreira.

São muitos questionamentos que nos fazem pensar como uma atividade de sustentabilidade como o manejo do pirarucu trouxe tanto reconhecimento para as mulheres da floresta. É importante refletir como foi difícil enfrentar os obstáculos e quebrar paradigmas de que cada uma é tão necessária, quanto cada mão de obra masculina existente. O reconhecimento de si mesmas  como grande potencial de seus territórios e comunidades, também foi um obstáculo, de se ver como parte e como referência dentro de cada processo.  Nessa trajetória de  luta,  vale refletir que as mulheres manejadoras de pirarucu fazem o envolvimento acontecer e estão se tornando cada vez mais importantes  para o fortalecimento da cultura e das vivências locais.

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