Comunicação

Perspectiva dos Pássaros reúne ciência, arte e saberes indígenas para enfrentar a desinformação sobre a Amazônia

Com atividades em São Paulo e Manaus, o projeto conectou pesquisadores, artistas, educadores e comunicadores em debates, oficinas e laboratórios de criação. 

por: Indiara Bessa


Olhar a floresta de cima pode revelar rios, copas de árvores, transformações na paisagem e marcas da ação humana. Mas compreender a Amazônia exige também aproximar o olhar do território, das pessoas que nele vivem e dos diferentes sistemas de conhecimento construídos ao longo de gerações. É desse encontro entre perspectivas que parte o projeto Perspectiva dos Pássaros – Desinformação e Biosfera, iniciativa internacional que, em agosto, reuniu instituições e participantes do Brasil e da Europa em uma programação realizada em São Paulo e Manaus.


O projeto articula ciência, arte, cultura, educação, comunicação e conhecimentos indígenas para discutir como diferentes formas de produzir e compartilhar informação podem contribuir para enfrentar a desinformação sobre florestas, biodiversidade, mudanças climáticas e povos indígenas. A proposta reúne pesquisadoras e pesquisadores, artistas, educadores e especialistas indígenas e conecta arquivos históricos e novas tecnologias de imagemapeamento, como dados de satélite e LiDAR, a conhecimentos e cosmologias construídos nos próprios territórios.

A imagem do pássaro funciona como fio condutor dessa construção. O projeto recupera, inclusive, as primeiras imagens aéreas da Amazônia produzidas na década de 1920 e as coloca em diálogo com tecnologias contemporâneas capazes de acompanhar transformações na floresta. Na etapa de criação, essas referências alimentam a produção de um filme de animação em que um pássaro percorre a floresta através do tempo.

Para Anita Ekman, do Goethe-Institut, essa combinação permite aproximar campos de conhecimento que muitas vezes são tratados separadamente.

“É justamente nesses vínculos entre pesquisa, cultura, arte, cosmologia e medicinas indígenas que se constrói um conhecimento, de fato, necessário para a Amazônia.”

Segundo ela, a proposta foi criar um espaço em que tecnologias e pesquisas científicas produzidas no Brasil e na Europa pudessem dialogar diretamente com “as vozes, os saberes e os pensamentos dos povos da floresta”, buscando novas formas de produzir e comunicar conhecimento.

De São Paulo a Manaus

A primeira etapa pública do projeto aconteceu nos dias 3 e 4 de agosto, em São Paulo, com um seminário internacional realizado no Goethe-Institut São Paulo e no Museu das Culturas Indígenas. Em formato híbrido, o encontro promoveu intercâmbios sobre pesquisas, mapeamentos, tecnologias sociais e estratégias pedagógicas para enfrentar a desinformação e ampliar a circulação de conhecimentos sobre os territórios e a biodiversidade.

Em seguida, o projeto chegou a Manaus, onde a programação se estendeu entre os dias 10 e 16 de agosto, conectando espaços como o Museu da Amazônia (MUSA), o Instituto Juruá, o Bahserikowi – Centro de Medicina Indígena e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). A capital amazonense recebeu o segundo seminário internacional e uma série de laboratórios voltados a transformar os debates em experiências e produtos de comunicação, educação e arte.

Comunicação, território e diferentes formas de conhecimento

No dia 12, uma das mesas colocou em diálogo mídia, ciência e comunidades no combate às fake news na Amazônia. O Instituto Juruá participou com Hugo C. M. Costa, abordando conhecimento e formas de gestão comunitária no Médio Juruá, e com Indiara Bessa, que apresentou reflexões sobre comunicação comunitária científica e justiça climática. A mesa também contou com Nicolò Lanfranchi, da Forest Knows.

Para Hugo Costa, enfrentar a desinformação pressupõe ampliar a própria ideia do que significa produzir informação legítima sobre a Amazônia.

“Desinformação não é só corrigir fatos errados. É também garantir que a informação do território, do conhecimento tradicional e do conhecimento indígena também seja considerada nesses movimentos de divulgação das informações, sejam científicas ou não.”

A comunicação, acrescentou, é uma ferramenta transversal da governança porque amplia a participação e contribui para decisões coletivas em territórios submetidos a pressões como desmatamento, pesca ilegal, mineração e outras disputas pelo uso dos recursos naturais.

Essa ampliação do olhar esteve presente também na participação de João Paulo Tukano, do Bahserikowi – Centro de Medicina Indígena. Para ele, os pássaros não são apenas uma metáfora visual. Suas qualidades, cantos e comportamentos integram formas indígenas de compreender a existência, as relações e a própria constituição das pessoas.

Ao refletir sobre os dias de intercâmbio entre representantes indígenas, pesquisadores, museus e instituições culturais, João Paulo destacou a necessidade de reconhecer a coexistência de diferentes sistemas de conhecimento.

“Nós precisamos dialogar […] para construir nossas relações, onde possamos respeitar um ao outro, cuidar mutuamente, desenvolver reciprocidade, praticar a vida como um todo.”

Da conversa à criação

Para ele, a aproximação entre conhecimentos indígenas, ciência, museus e outras instituições também abre possibilidades para revisitar coleções indígenas mantidas há mais de um século em instituições europeias, não apenas como objetos de pesquisa, mas a partir das histórias, pensamentos e relações associadas a esses materiais.

Depois das mesas e debates, o projeto entrou em uma etapa prática de criação coletiva. A sede do Instituto Juruá recebeu a Oficina de Animação, enquanto no MUSA aconteceram a Oficina de Fotografia, o grupo dedicado ao desenvolvimento do kit pedagógico e as atividades voltadas à mediação cultural e aos museus.

Na Oficina de Animação, participantes de diferentes formações reuniram conhecimentos científicos, referências históricas, experiências territoriais e perspectivas indígenas para avançar na construção da narrativa audiovisual do projeto. O processo participativo é parte central da proposta: a animação não busca apenas transmitir informações sobre a Amazônia, mas produzir uma narrativa construída a partir do encontro entre diferentes formas de ver, conhecer e representar a floresta.

A Oficina de Fotografia, realizada no MUSA, aprofundou as discussões sobre imagens e representação da Amazônia, em diálogo com um projeto que nasce justamente da tensão entre aquilo que se vê de longe e aquilo que só se compreende por meio da proximidade com os territórios.

Essa experiência chamou a atenção de Mayra Oi Saito, da coordenação educativa do Itaú Cultural, que participou das discussões sobre coleções, biodiversidade e mediação cultural.

“A gente está tendo o privilégio de vir aqui para Manaus e conhecer esse acervo vivo: esses animais, essas plantas, acompanhar as transformações, entender o contexto de onde elas vêm, como vivem, como interagem nas relações.”

Para Mayra, reunir profissionais da arte e da mediação cultural com biólogos, arqueólogos, etnólogos, fotógrafos e representantes indígenas amplia as possibilidades de interpretar e comunicar acervos históricos. “A gente quer disseminar isso para que todo mundo conheça mais a Amazônia, Manaus, esses acervos e esse conhecimento todo que é produzido e às vezes não circula”, afirmou.

Uma rede que continua em movimento

O trabalho, entretanto, não termina com os encontros presenciais. Um dos principais resultados previstos é a produção de um kit pedagógico, tendo o filme de animação como elemento central. A proposta é que os materiais circulem em escolas, bibliotecas, cinematecas e assembleias comunitárias indígenas, contribuindo para a alfabetização midiática, o acesso a informações qualificadas e a valorização de diferentes formas de conhecimento. Também estão previstas versões digitais em outros idiomas, ampliando a circulação internacional dos conteúdos.

Como sintetizou Anita Ekman, mais do que reunir instituições, a experiência buscou construir uma “arquitetura das relações”, capaz de aproximar arte, ciência, território e cosmologias.

A expectativa é que os materiais construídos em conjunto continuem esse percurso — como pássaros que atravessam fronteiras — levando para outros espaços uma compreensão da Amazônia produzida não apenas sobre os territórios, mas em diálogo com quem produz conhecimento e sustenta diariamente as relações com a floresta.

Quem participa do Perspectiva dos Pássaros

O Perspectiva dos Pássaros – Desinformação e Biosfera é realizado pelo Goethe-Institut Rio de Janeiro, Goethe-Institut São Paulo, Consulado da França no Rio de Janeiro e Consulado da França em São Paulo, com apoio financeiro do Fundo Franco-Alemão 2026.

A correalização envolve o Forest History Lab / Max-Planck-Institut für Geoanthropologie, Heinrich-Böll-Stiftung Brasilien e Escolas Vivas / Associação Selvagem. Colaboram com a iniciativa Intervozes, MUSA – Museu da Amazônia, Instituto Juruá, Bahserikowi – Centro de Medicina Indígena, Museu das Culturas Indígenas, Cinemateca Brasileira e INPA. O projeto conta ainda com parcerias institucionais do Istituto Italiano di Cultura de São Paulo, Amazônia Revelada e Amazônia de Pé.

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