Comunicação

El Niño 2026: ciência e articulação reforçam alerta sobre impactos na Amazônia

Carta assinada por João Vitor Campos-Silva e reportagem publicada pela Nature, com participação do pesquisador Bernardo Flores, do Instituto Juruá, chamam atenção para os efeitos combinados de secas extremas, altas temperaturas e incêndios sobre a floresta e as populações amazônicas.

A Amazônia se prepara para enfrentar mais um período de forte pressão climática. O El Niño, fenômeno associado ao aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial e a alterações nos padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta, está estabelecido e continua se intensificando. Na Amazônia, seus efeitos costumam estar associados à redução das chuvas, ao aumento das temperaturas, à queda dos níveis dos rios e ao crescimento do risco de incêndios florestais.

O cenário ganha especial importância porque a floresta ainda carrega os efeitos da seca extrema de 2023 e 2024. Uma reportagem especial publicada pela revista Nature em agosto deste ano reuniu pesquisas recentes para discutir até que ponto a combinação entre secas recorrentes, aquecimento global, desmatamento e fogo pode reduzir a capacidade de recuperação da Amazônia. A publicação chama atenção para uma preocupação crescente entre cientistas: eventos extremos podem estar ocorrendo em intervalos menores do que o tempo necessário para que partes da floresta se recuperem plenamente.

Entre os pesquisadores ouvidos pela Nature está Bernardo Flores, especialista em resiliência da Amazônia e pesquisador do Instituto Juruá. Flores destaca especialmente o papel do fogo nesse processo. Florestas que queimam tornam-se mais vulneráveis a novos incêndios durante muitos anos, criando um ciclo no qual seca, fogo e mortalidade de árvores podem se reforçar mutuamente. Em um cenário de eventos climáticos extremos mais frequentes, áreas progressivamente maiores podem se tornar suscetíveis ao fogo.

A preocupação está relacionada também ao debate científico sobre os chamados limiares críticos — ou “pontos de não retorno” — da Amazônia. Estudos recentes analisados pela Nature indicam que a interação entre aquecimento global e perda de cobertura florestal pode diminuir a estabilidade do sistema amazônico. Ainda existem incertezas sobre onde exatamente esses limites estão e se eles poderiam ser ultrapassados em escala regional ou em toda a bacia. Há, entretanto, crescente consenso sobre um ponto fundamental: reduzir o desmatamento e os incêndios e aumentar a capacidade de resposta às secas é essencial para diminuir os riscos.

Vista de drone de floresta alagada ao amanhecer – RESEX Reserva Extrativista do Médio Juruá

Um alerta construído antes da crise

Essa preocupação também motivou uma mobilização de pesquisadores ligados a dezenas de instituições que atuam na Amazônia.

Em junho, foi publicada a carta aberta “El Niño 2026: Impactos na Amazônia e Recomendações”, assinada por especialistas em meio ambiente e sociedade, recursos hídricos e mudanças climáticas. Entre os signatários está João Vitor Campos-Silva, diretor do Instituto Juruá. A versão atual do documento reúne 45 pesquisadores de instituições brasileiras e internacionais.

O documento foi dirigido principalmente aos governos nacionais e locais dos países amazônicos e aos sistemas de defesa civil. Mais do que chamar atenção para o fenômeno climático, a carta procura antecipar suas possíveis consequências e defender que medidas de prevenção sejam tomadas antes que os efeitos mais graves da seca se instalem.

Os riscos apresentados mostram que os impactos do El Niño vão muito além da floresta. A redução das chuvas e dos níveis de rios, lagos e igarapés pode comprometer a agricultura familiar, a produção da sociobiodiversidade, a pesca e o acesso à água. Em comunidades remotas, a redução da navegabilidade dos rios também pode dificultar o transporte de alimentos, medicamentos e combustíveis, além do acesso a escolas e serviços de saúde. Temperaturas mais elevadas da água podem ainda provocar mortalidade de peixes e outros animais aquáticos.

Os incêndios acrescentam outra camada de risco. Além da perda de biodiversidade e da degradação da floresta, o fogo pode comprometer cultivos e sistemas produtivos, danificar infraestruturas comunitárias e agravar problemas de saúde relacionados à fumaça e ao calor.

Por isso, a carta defende uma resposta que conecte segurança alimentar, segurança hídrica, saúde, mobilidade, proteção ambiental e gestão de riscos. Entre as medidas propostas estão a antecipação da logística de alimentos para comunidades sob risco de isolamento, apoio a agricultores familiares e pescadores afetados pela seca, ampliação de sistemas de abastecimento e bombeamento de água e, sobretudo, maior articulação entre municípios, estados, governo federal, países amazônicos e instituições que atuam nos territórios. O documento também destaca a necessidade de recursos de contingência para que as ações preventivas possam ocorrer antes da emergência.

Um alerta que se tornou ainda mais urgente

Quando a carta foi publicada, em 26 de junho, as projeções já indicavam a possibilidade de um evento excepcionalmente intenso. Desde então, os sinais se fortaleceram.

Em seu boletim de 10 de setembro, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) informou que o El Niño continua ganhando força e estimou em mais de 90% a probabilidade de que alcance intensidade muito forte durante o segundo semestre de 2026 e o início de 2027. Para o período entre outubro e dezembro, a agência calculou ainda 75% de chance de o evento superar, em intensidade, os demais registrados desde 1950 segundo o índice utilizado em sua previsão.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) também atualizou suas projeções em setembro e considera praticamente certa a permanência do El Niño até fevereiro de 2027, alertando governos e serviços meteorológicos para a necessidade de fortalecer sistemas de preparação e alerta.

No Brasil, órgãos como INPE, INMET, Cemaden, ANA, Serviço Geológico do Brasil, Defesa Civil e Censipam vêm acompanhando conjuntamente o fenômeno. As projeções mais recentes indicam chuvas abaixo da média em partes da Amazônia e temperaturas acima do normal, combinação que pode prolongar a estação seca, reduzir a disponibilidade de água e ampliar o risco de incêndios.

Ciência conectada aos territórios

A participação do Instituto Juruá nesse debate ocorre em duas frentes complementares. De um lado, pesquisadores da instituição contribuem para ampliar o conhecimento científico sobre a vulnerabilidade e a resiliência dos ecossistemas amazônicos. De outro, o Instituto se soma a redes de pesquisadores e organizações que buscam transformar esse conhecimento em alerta público e em subsídios para prevenção e tomada de decisão.

Essa conexão é especialmente importante em territórios amazônicos onde os rios são, simultaneamente, vias de transporte, fonte de alimento e elemento central da vida social e econômica. Quando o nível da água cai, os impactos não acontecem de forma isolada: pesca, produção, saúde, educação, abastecimento e mobilidade podem ser afetados ao mesmo tempo.

É justamente essa dimensão integrada que aproxima a reportagem da Nature e a carta assinada por João Campos-Silva. Enquanto a primeira mostra como secas e incêndios sucessivos podem reduzir a capacidade de recuperação da própria floresta, a segunda chama atenção para as consequências desses mesmos processos sobre quem vive na Amazônia e apresenta caminhos concretos de preparação.

O desafio, portanto, não começa quando um rio atinge uma cota crítica ou quando um incêndio já está fora de controle. Preparar-se para eventos climáticos extremos significa transformar antecipadamente conhecimento científico em planejamento, articulação institucional e ações construídas a partir das realidades de cada território.

Em um cenário de mudanças climáticas e de extremos cada vez mais frequentes, produzir conhecimento, comunicar riscos e fortalecer respostas preventivas são partes de uma mesma tarefa: ampliar a capacidade de a Amazônia e suas populações atravessarem as transformações que já estão em curso.

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