Por Julian Santiago e Maria Cunha

Nos dias 22 e 23 de junho de 2026, o Instituto Juruá participou, em Lyon, na França, do colóquio internacional “Rumo a uma abordagem One Health inclusiva: transdisciplinaridade e saberes comunitários diante dos desafios sanitários e ambientais contemporâneos”. O encontro reuniu pesquisadores, profissionais que atuam nos territórios e representantes de iniciativas comunitárias para discutir as conexões entre saúde humana, saúde animal, biodiversidade, mudanças climáticas e desigualdades sociais.
Organizado pelo laboratório RESHAPE, da Université Lumière Lyon 2, em parceria com o Instituto Juruá e com o apoio de instituições francesas e brasileiras, o colóquio propôs ampliar o debate sobre Saúde Única (One Health), incorporando abordagens participativas, perspectivas decoloniais e diferentes sistemas de conhecimento — especialmente aqueles construídos por comunidades indígenas e não indígenas em sua relação cotidiana com os territórios.
A abordagem de Saúde Única parte do entendimento de que a saúde das pessoas, dos animais e dos ambientes está profundamente conectada. Essa perspectiva permite compreender de forma integrada desafios como doenças infecciosas emergentes, mudanças climáticas, perda de biodiversidade, degradação ambiental e desigualdades no acesso à saúde.
Na Amazônia, essas conexões são particularmente evidentes. A conservação dos ecossistemas, o uso sustentável dos recursos naturais, a segurança alimentar, a geração de renda e a qualidade de vida das populações estão diretamente relacionados à forma como os territórios são utilizados, protegidos e governados.
Experiências do Médio Juruá no debate internacional
A participação do Instituto Juruá levou ao debate internacional experiências desenvolvidas no Médio Juruá, onde a conservação da biodiversidade está diretamente relacionada à organização comunitária, à governança territorial e à construção coletiva de soluções para desafios sociais e ambientais.
Na abertura do colóquio, João Vitor Campos-Silva, do Instituto Juruá, integrou a mesa institucional e apresentou a palestra “Ecologia e saúde humana: tecendo conexões”. A apresentação destacou a importância de compreender conjuntamente a integridade dos ecossistemas, o bem-estar das populações e os processos de conservação.
Durante a sessão dedicada à incorporação da Saúde Única na governança local, Julian Santiago apresentou a experiência de governança comunitária no Médio Juruá. A contribuição mostrou como associações de base, lideranças locais, comunidades e instituições parceiras constroem acordos, regras e estratégias coletivas para o manejo dos recursos naturais e a proteção dos territórios.

O Instituto Juruá também participou da sessão sobre metodologias comunitárias aplicadas às pesquisas em saúde e meio ambiente. Hugo Costa e Maria Cunha apresentaram a experiência de colaboração entre pesquisadores e comunidades ribeirinhas na conservação do pirarucu. A apresentação mostrou como conhecimento ecológico local, monitoramento comunitário, pesquisa científica e governança territorial podem atuar de forma complementar.
A experiência foi trazida também a partir da perspectiva de Maria Cunha, moradora da comunidade São Raimundo, na Reserva Extrativista do Médio Juruá, mulher ribeirinha e liderança local.
Sua participação contribuiu para aproximar o debate conceitual sobre Saúde Única das experiências concretas de quem vive e participa diretamente da gestão dos territórios amazônicos.
Comunidades também participam da construção da pesquisa
Na sequência, Mathilde Font-Crespo, doutoranda em regime de cotutela entre a Université Lumière Lyon 2 e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), apresentou sua pesquisa sobre preparação para pandemias e epidemias no Médio Juruá, desenvolvida a partir das abordagens de Saúde Única e pesquisa comunitária.
O estudo investiga as experiências das comunidades durante a pandemia de covid-19, o acesso aos cuidados e aos recursos de saúde disponíveis na região, além da percepção e da confiança das populações nesses recursos.
Mathilde apresentou ainda os métodos utilizados no projeto e a participação das comunidades ribeirinhas tanto na definição dos objetivos da pesquisa quanto na construção das ferramentas de coleta de dados. A proposta é fazer com que as comunidades não ocupem apenas a posição de participantes da pesquisa, mas contribuam para definir aquilo que será investigado e como o conhecimento será produzido.
Essa perspectiva dialoga diretamente com as pesquisas desenvolvidas pelo RESHAPE. Dulce Ferraz, professora de Psicologia Social da Université Lumière Lyon 2, trabalha com as dimensões psicossociais das doenças infecciosas, preparação e resposta a doenças emergentes e pesquisa comunitária, articulando saúde pública e ciências sociais.
Costanza Puppo, pesquisadora do RESHAPE, também apresentou um projeto voltado à compreensão de como diferentes atores e instituições constroem respostas coletivas aos riscos associados às doenças infecciosas emergentes no Brasil a partir da perspectiva de Saúde Única. Suas pesquisas articulam métodos qualitativos, abordagens comunitárias e estudos sobre percepção de riscos relacionados a doenças emergentes.
Em Carauari, o projeto buscará compreender, a partir das experiências e práticas locais, como comunidades, instituições e outros atores constroem respostas diante de riscos sanitários e ambientais.
Saúde dos ecossistemas e fortalecimento das comunidades
As experiências compartilhadas durante o colóquio reforçaram uma mensagem central: uma abordagem verdadeiramente inclusiva de Saúde Única não pode se limitar à integração entre saúde humana, animal e ambiental. É necessário também considerar os territórios, as desigualdades históricas e a participação das comunidades na produção do conhecimento e nas decisões que afetam seus modos de vida.
No Médio Juruá, experiências como a proteção dos lagos, o manejo comunitário do pirarucu, a conservação de quelônios e outros modelos de uso sustentável mostram que ecossistemas saudáveis dependem de comunidades fortalecidas, com direitos reconhecidos e capacidade de participar da governança de seus territórios.
A relação também ocorre no sentido inverso: a qualidade de vida e o bem-estar das comunidades dependem da conservação da biodiversidade e da manutenção dos ambientes que sustentam sua alimentação, renda, cultura e modos de vida.
Essa perspectiva amplia o significado da Saúde Única na Amazônia. Mais do que integrar diferentes campos científicos, significa compreender que questões sanitárias, ambientais e sociais estão conectadas e precisam ser enfrentadas a partir das realidades de cada território.
Cooperação para uma Saúde Única mais inclusiva
A colaboração entre o Instituto Juruá, a Université Lumière Lyon 2 e as demais instituições envolvidas no colóquio busca fortalecer pesquisas de longo prazo e iniciativas capazes de aproximar diferentes áreas do conhecimento e diferentes formas de compreender o território.
Essa cooperação também contribui para a formação de uma nova geração de pesquisadores comprometidos com uma ciência ética, inclusiva e socialmente relevante. Ao compreender as conexões entre saúde humana, animal e ambiental, estudantes e jovens pesquisadores ampliam sua capacidade de analisar problemas complexos e desenvolver pesquisas conectadas às realidades locais.
Mais do que levar as experiências do Médio Juruá para espaços internacionais, a proposta é construir relações duradouras, baseadas na troca de conhecimentos, na confiança e na corresponsabilidade. Isso significa valorizar os saberes comunitários, assegurar que os resultados das pesquisas retornem aos territórios e reconhecer as comunidades como protagonistas na definição de perguntas, metodologias e possíveis soluções.
A participação no colóquio fortaleceu a cooperação entre o Instituto Juruá e a Université Lumière Lyon 2 e aproximou experiências amazônicas dos debates internacionais sobre saúde, meio ambiente, justiça social e produção compartilhada do conhecimento.
Os aprendizados construídos no Médio Juruá mostram que pensar Saúde Única na Amazônia também significa reconhecer quem vive, conhece e cuida diariamente dos territórios como parte central da construção de soluções para o futuro.








