COMUNICAÇÃO

Existe relação entre o resultado do primeiro turno nos municípios e a perda de biodiversidade?

Estudo desenvolvido por pesquisadores do Instituto Juruá encontra relação entre municípios da Amazônia brasileira pró-Bolsonaro e a perda de vegetação nativa e biodiversidade

Por Clara Machado

A principal causa de perda de florestas e ambientes naturais é a expansão das terras agrícolas, e o Brasil é o país com maior área disponível para a expansão agrícola no mundo, sendo a maioria dessas áreas na Amazônia.

Para entender como essa expansão agrícola, que devasta florestas na Amazônia historicamente, está relacionada com o resultado do primeiro turno das eleições, os pesquisadores do Instituto Juruá Carlos Peres, João Campos-Silva e Camila Duarte Ritter investigaram os resultados do primeiro turno nos 558 municípios da Amazônia brasileira e revisaram dados sobre a perda de vegetação no bioma entre os anos de 1985 e 2021, disponíveis na plataforma Mapbiomas Brasil.

Os resultados não surpreendem, pois confirmam uma relação direta entre o voto bolsonarista e o avanço do desmatamento. Bolsonaro aumentou sua maioria de votos em nove dos 10 municípios da Amazônia com maior taxa de desmatamento desde janeiro de 2019. Os municípios com alta taxa de desmatamento também experimentam altas taxas de subemprego, o que pode refletir em atividades ilegais de extração de madeira, grilagem de terras e mineração. Os autores especulam que esse pode ser um fator importante para o voto no atual presidente, por não apresentar compromisso com o combate a essas atividades. 

Por outro lado, a maioria dos municípios onde Lula teve mais votos no primeiro turno, permanece praticamente intacta em área florestal e é ocupada principalmente por amazônicos tradicionais e nativos, cujos territórios têm sido cada vez mais invadidos por grileiros, agricultores, madeireiros ilegais e garimpeiros.

Os municípios pró-Bolsonaro se encontram nitidamente distribuídos no conhecido “Arco do Desmatamento” e áreas adjacentes como o cinturão consolidado do agronegócio do sul da Amazônia, onde as terras de soja têm avançado rapidamente para pastagens de gado de baixa produtividade. E o potencial para uma maior expansão agrícola em terras atualmente protegidas e desprotegidas é assustador, já que novas plantações de soja podem colonizar rapidamente cerca de dois quintos da Amazônia.

Prevalência de votação presidencial por município em que a maioria de Bolsonaro e Lula vence são indicadas por pontos azuis e vermelhos, respectivamente (A), e taxas de desmatamento (incluindo perda de floresta e cerrado) no período 1985-2021 em toda a Amazônia brasileira (B). A linha vermelha em B indica o ‘arco do desmatamento’ em expansão da Amazônia.

Jair Bolsonaro chegou ao poder em 2018, prometendo o perdão à comunidade agrícola de qualquer violação ambiental anterior. Além disso, os incentivos governamentais, como novas infraestruturas, crédito rural e titulação de terras públicas, claramente favorecem um modelo que atrai imigrantes para a Amazônia na busca de enriquecimento às custas de graves perdas ambientais.

O estudo intitulado “Política ambiental em um entroncamento crítico na Amazônia” (Environmental policy at a critical junction in the Amazon) está em pré-publicação submetido na revista Trends in Ecology & Evolution, e finaliza com um apelo pela Amazônia “derrotar Bolsonaro é essencial, não apenas para estabilizar a conservação ambiental na Amazônia, mas também para cumprir as políticas internacionais de conservação da biodiversidade, justiça socioambiental e desenvolvimento sustentável que garantirão um futuro melhor em todos os lugares da Terra.”

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